terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O monstro

Um monstro o qual todos conheciam,
Esse que tinha algumas mulheres, ainda.
Mas certos dias não podia ver ninguém,
                               [apenas por vergonha
de sua aparência, dos seus atos, da sua vida.

Um olho roxo aparece de manhã.
Ninguém o bateu
Mas ele conseguiu um olho roxo
Numa loteria de desastres corporais.
O monstro é campeão
Em ganhar desastres.

E em guardar lembranças.
Tivesse visto o mundo, hoje, perderia a memória.
Tivesse sido um grande esgrimista, hoje, não teria a mão.

Tivesse amado uma bela mulher,

hoje.

não tem coração.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cego

A aflição de não fazer sentido,
Ser humano, eu sou humano e quê,
Quem ou como sou; Como sou humano?

A aflição de ser humano e não fazer sentido,
         frases sem sentido me dão aflição;
Verbos sem conjugação,
            Ser mendigo em cidade grande, ser pedinte
de paixão


Ser carente de aflição ser aflito e ter morrido no perigo da noite
                                   [fria.

O silêncio castiga, maltrata a cria.
Mãe faz, mãe tira, mãe recusa,

   Mãe cria

 Quem é minha mãe perto da minha aflição de humano?

                   Sou eu mais ou menos um ser que penso
Ou penso ser um ser que sou mais ou menos?

Me perco em olhares nas ruas, são olhos muito orgulhosos
Para receberem lágrimas,
São partes da mesma rima
Das mesmas lástimas,
         São olhares secos e frios e perguntas ofensivas.
                       Socos na cara, crianças famintas

                 Aflição de ser humano e ter que lidar com essa gente que não sabe o que é.
Se é homem, se é carne, se é mulher!
        Olha a raça, o cabelo, a cor, olha o que tiver de olhar, olha pra beleza da flor
E olha também pra mim, que minha vida hão de tirar!
          
                           Olha também pra mim que eu sofro da tua dor

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O terno

A tristeza dos lagos
Reside em não desaguar
Nos reflexos das águas,
vejo um resumo dos fatos
A ceia não é de quem sabe cear.
E caminhar sobre as águas
Já não é mais omissão
Contar nos dedos os nós da alma
Pra entender os do coração

Mas desde quando palavras movem rios?
Rios desaguam, lagos silenciam.
A ceia é dos famintos, dos estômagos vazios
Rios vomitam, lagos se saciam.

A ceia é de quem tem fome. 

E cada um tem fome de algo. 

Tudo que é, já se alimentou

Me alimento pois não deságuo

E há quem caminhe com fome de Rio, 

E se deságua, se afogou.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Ampola


Um recipiente vazio
Feito para guardar,
Lotado de frio,
De vidro pra cortar.

Sem fotos, sem cartas.
Só asas, sujeira.
São mulheres mortas,
São demônios na beira
Da janela, olhando para mim

Como se fossem entrar,
São morcegos me vigiando
Entre as gretas
Roubando o ar.

As mãos, os pés
Gelados, mortos.
Era quente por fora
E fria por dentro.
Era seu esse calor?
Eu não vi, e não sinto rancor.

Foi bicho de estimação
Abandonado, largado pra morrer.
Foram cigarros jogados fora
A meia noite, e a chance
Que eu tenho guardada,
O tempo me diz que de fato
Nunca vou ter.

Teria me jurado algo
Apenas por prazer?

Estive por anos lotado
De ampolas quebradas
Que não puderam me conter.

Todos confundimos o que é sentir
E o que é ter.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Pequeno horizonte

São pretos, pardos e brancos,
São feitos de dentes amarelos,
São dores por causa de trancos,
Amores um tanto singelos

Quebrei a métrica, sumi na vida,
             Pisei em cada flor que vi na avenida;
                      Apertei os dedos das mãos com força,
Tentei seguir o perfume da moça

          Somos grandes pequenos homens
Escrevendo sobre pequenas grandes coisas,
Sou parte de todas elas, sou nada em quase todas.

                Uma madrugada longa e crua
Sem voz e sem garoa
       Onde o sussurro é passageiro
Sou marinheiro de lagoa.


Átomo

Quem dá ritmo às ruas
é o cigarro que não existe
desespero que insiste
nessa luta minha e tua.

Há quantos anos eu não via rima,
há quanto tempo não tenho mais medos?
Ouvi dizer que não há como descer para cima
Me disseram que não se faz o que já está feito.

As manchas na parede parecem querer me dizer algo
mas ainda não falo a língua dos materiais de construção,
num piscar de olhos, coliseu é colisão
e eu quer era flecha, agora sou alvo.

e pensar que todas as coisas são feitas do mesmo material.